quinta-feira, 29 de junho de 2017

S. Pedro e S. Paulo, Apóstolos




29 de Junho

Solenidade dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo


Gente da Terra Santa: Mateus

São Mateus - por Guido Reni

Mateus

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguindo a série de retratos dos doze Apóstolos, que começámos há algumas semanas, hoje detemo-nos em Mateus. Na verdade, apresentar completamente a sua figura é quase impossível, porque as notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas. Mas o que podemos fazer, não é tanto um esboço da sua biografia, mas ao contrário o perfil que o Evangelho transmite.

Entretanto, ele está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13). O seu nome hebraico significa "dom de Deus". O primeiro Evangelho canónico, que tem o seu nome, apresenta-no-lo no elenco dos Doze com uma qualificação bem clara: "o publicano" (Mt 10, 3). Desta forma ele é identificado com o homem sentado no banco dos impostos, que Jesus chama ao seu seguimento:  "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe:  "Segue-me!". Ele levantou-se e seguiu-o" (Mt 9, 9). Também Marcos (cf. 2, 13-17) e Lucas (cf. 5, 27-30) narram a chamada do homem sentado no posto de cobrança, mas chamam-no "Levi". Para imaginar o cenário descrito em Mt 9, 9 é suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma na Igreja de São Luís dos Franceses. Dos Evangelhos sobressai um ulterior pormenor biográfico:  no trecho que precede imediatamente a narração da chamada é referido um milagre realizado por Jesus em Cafarnaum (cf. Mt 9, 1-8; Mc 2, 1-12) e é mencionada a proximidade do Mar da Galileia, isto é do Lago de Tiberíades (cf. Mc 2, 13-14). Disto pode deduzir-se que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaúm, situada precisamente "à beira-mar" (Mt 4, 13), onde Jesus era hóspede fixo na casa de Pedro.

Com base nestas simples constatações que resultam do Evangelho podemos fazer algumas reflexões. A primeira é que Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em vigor na Israel daquele tempo, era considerado um público pecador. De facto, Mateus não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua proveniência de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam unitariamente de "publicanos e pecadores" (Mt 9, 10; Lc 15, 1), de "publicanos e prostitutas" (Mt 21, 31). Além disso eles vêem nos publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5, 46:  amam os que os amam) e mencionam um deles, Zaqueu, como "chefe dos publicanos e rico" (Lc 19, 2), enquanto a opinião popular os associava a "ladrões, injustos, adúlteros" (Lc 18, 11). É ressaltado um primeiro dado com base nestes elementos: Jesus não exclui ninguém da própria amizade. Ao contrário, precisamente porque se encontra à mesa em casa de Mateus-Levi, em resposta a quem falava de escândalo pelo facto de ele frequentar companhias pouco recomendáveis, pronuncia a importante declaração:  "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mc 2, 17).

O bom anúncio do Evangelho consiste precisamente nisto: na oferenda da graça de Deus ao pecador! Noutro texto, com a célebre parábola do fariseu e do publicano que foram ao Templo para rezar, Jesus indica inclusivamente um anónimo publicano como exemplo apreciável de confiança humilde na misericórdia divina:  enquanto o fariseu se vangloria da própria perfeição moral, "o cobrador de impostos... nem sequer ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador"". E Jesus comenta: "Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (Lc 18, 13-14). Na figura de Mateus, portanto, os Evangelhos propõem-nos um verdadeiro e próprio paradoxo:  quem aparentemente está afastado da santidade pode até tornar-se um modelo de acolhimento da misericórdia de Deus e deixar entrever os seus maravilhosos efeitos na própria existência. Em relação a isto, São João Crisóstomo faz uma significativa anotação:  ele observa que só na narração de algumas chamadas se menciona o trabalho que as pessoas em questão desempenhavam. Pedro, André, Tiago e João são chamados quando estão a pescar, Mateus precisamente quando cobra os impostos. Trata-se de trabalhos de pouca importância — comenta Crisóstomo — "porque não há nada mais detestável do que um cobrador de impostos e nada de mais comum do que a pesca" (In Matth. Hom.: PL 57, 363). A chamada de Jesus chega portanto também a pessoas de baixo nível social, enquanto desempenham o trabalho quotidiano.

Outra reflexão, que provém da narração evangélica, é que à chamada de Jesus, Mateus responde imediatamente: "ele levantou-se e seguiu-o". A condensação da frase ressalta claramente a prontidão de Mateus ao responder à chamada. Isto significava para ele o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro seguro, mesmo se muitas vezes injusto e desonesto. Evidentemente Mateus compreendeu que a familiaridade com Jesus não lhe permitia perseverar em actividades desaprovadas por Deus. Intuiu-se facilmente a aplicação ao presente:  também hoje não é admissível o apego a coisas incompatíveis com o seguimento de Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Certa vez Ele disse sem meios-termos:  "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me" (Mt 19, 21). Foi precisamente isto que Mateus fez: levantou-se e seguiu-o! Neste "levantar-se" é legítimo ver o abandono de uma situação de pecado e ao mesmo tempo a adesão consciente a uma existência nova, recta, na comunhão com Jesus.

Por fim, recordamos que a tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da paternidade do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias, Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreve: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16).


O historiador Eusébio acrescenta esta notícia: "Mateus, que primeiro tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos escreveu na sua língua materna o Evangelho por ele anunciado; assim, procurou substituir com a escrita, junto daqueles dos quais se separava, aquilo que eles perdiam com a sua partida" (ibid., III, 24, 6). Já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico, mas no Evangelho grego que ainda continuamos a ouvir, de certa forma, a voz persuasiva do publicano Mateus que, tendo-se tornado Apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvadora de Deus e ouvimos esta mensagem de São Mateus, meditámo-la sempre de novo para aprender também nós a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.

PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Este é o pão que desceu do Céu

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo – Ano A
15 Junho 2017






EVANGELHO – Jo 6, 51-58

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

Naquele tempo, disse Jesus à multidão:
«Eu sou o pão vivo descido do Céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que Eu hei de dar é a minha Carne
pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si:
«Como pode Ele dar-nos a sua Carne a comer?»
Jesus disse-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Se não comerdes a Carne do Filho do homem
e não beberdes o seu Sangue,
não tereis a vida em vós.
Quem come a mina Carne e bebe o meu Sangue
tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha Carne é verdadeira comida
e o meu Sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai,
também aquele que me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu;
não é como aquele que os vossos pais comeram, e morreram;
quem comer deste pão viverá eternamente».


A memória viva da Ceia do Senhor

«Irmãos: Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim. Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim”. Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.»

Assim encontramos, neste trecho de São Paulo, a primeira narrativa da Ceia do Senhor. E, parecendo sucinta, diz-nos tudo o que fazemos como cristãos nos vinte séculos que levamos no mundo e para o mundo.

Diz-nos que somos uma memória, em torno dum sacramento e responsabilizados numa missão. Que somos uma memória... Porque exactamente isso somos, a memória de quanto Jesus disse e fez, e de como se disse no que fez. A Ceia foi a última, porque já nada mais há a assinalar, quando num gesto se resume a vida inteira, com o seu significado para Deus e para todos. Aquele pão feito corpo, indicava quem o dizia assim, pois tudo nele fora oferta, não guardando para si nada do que recebera do seu Pai.

Do nascimento virginal em Maria, pois que era oferta exclusiva de Deus, à vida em Nazaré da Galileia, com a simplicidade das obras e dos dias em que totalmente vivia e convivia; aos anos seguintes, de terra em terra para abrir a todos o Reino que trazia, tudo em Jesus era corpo entregue, e assim foi até à cruz. Tudo como um pão que se oferece e a si mesmo se reparte. Tudo como sangue derramado, na aliança definitiva, em que à vida se corresponde com a vida – para a vida do mundo.

E porque a oferta foi inteira, preenche-nos inteiramente a memória e assim mesmo deve ser, pois dela somos herdeiros e atores. A memória dum corpo entregue, nisto mesmo percebendo à luz de Cristo que dizer “corpo” não é referir uma coisa que se tenha e de que se possa dispor a bel-prazer próprio ou alheio, mas exactamente o que somos e havemos de ser como “pessoas”, isto é, sujeitos em relação. Como as palavras de Jesus eram Jesus Palavra, os silêncios de Jesus eram Jesus Silêncio, os gestos de Jesus eram Jesus Gesto, a vida de Jesus era Jesus Vida.

E em tudo isto “corpo”, isto é, pessoa divina e humana, em relação que diviniza a humanidade que o acolhe. Falava para animar, calava para escutar, agia para salvar, vivia para dar vida. E assim mesmo morreu, num corpo trespassado de que mais saía sangue, ou seja vida e vida nova, do que entravam os pregos ou a lança, que lhe perfuraram pés, mãos e peito, como também os espinhos da coroa que lhe deram. O corpo trespassado de Jesus é como um pão de grãos triturados, que afinal nos alimenta e sacia.

A esta luz fortíssima, amados irmãos, vislumbremos hoje o que realmente somos, a partir do Corpo entregue do Senhor Jesus. Vislumbremos que, enquanto corpo, enquanto falamos e calamos, fazemos ou deixamos de fazer isto ou aquilo, é sempre e só a nós que mencionamos, uns dos outros, uns com os outros e uns para os outros.

Vejamos, muito consequentemente, o que significa também a corporeidade de cada um, desde a vida embrionária à vida saudável, enfraquecida, ou moribunda, que, em qualquer dos casos, é sempre manifestação da pessoa que se forma, mantém ou vai partindo. Porque «a vida não acaba, apenas se transforma» e a relação permanece, activa ou latente. Na vida e na Páscoa do Senhor aprendemos o que seja a vida: é comunhão, corporalmente actuada em palavras, silêncios e gestos, que quanto mais se reparte mais acresce, na fermentação absoluta do Espírito de Cristo. Esse mesmo Espírito que compartilha com o Pai e nos faz viver em vida repartida.

Comungamo-Lo pois, ao Corpo de Cristo, para sermos comunhão e fazermos comunhão. Por isso mesmo, na epístola paulina de que se retira a notícia da Ceia do Senhor, logo se referem as exigências para legitimamente o fazermos. Se comungamos o Senhor que se oferece como alimento, temos de alimentar também os outros, com tudo o que lhes devemos de respeito, disponibilidade e serviço. Porque a morte do Senhor, como a Ceia assinalou, foi morte para si e vida para os outros, sintetizando ali o que fora a sua vida inteira e inteiramente o fora. Um corpo num gesto, um sinal absoluto de doação e partilha.

Dois mil anos de cristianismo, com tudo o que os recordam e retomam – como esta mesma Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, e logo na procissão que faremos – guardam apenas como memória autêntica a vida do Senhor, oferecida na Ceia em que a Cruz se assinalou. Pensemos nisto em nós, quando fazemos o sinal da Cruz; pensemos nisto para os outros, quando com eles nos cruzarmos. Como vidas repartidas e assim mesmo, só assim, ressuscitadas no mundo de Deus, no mundo do amor de Cristo para todos. 

Porque esta memória é memória viva, e assim mesmo sacramento. São Paulo diz-nos que “comemos deste pão”. Não lembramos um gesto do passado, revivemo-lo realmente agora, alimentamo-nos hoje como então. Numa Ceia que não termina, como nunca acaba a entrega do Senhor na Cruz, para a vida do mundo. Cabe sempre repetir as palavras de Madre Teresa de Calcutá a um sacerdote que se preparava para celebrar: «Celebra esta Missa como se fosse a primeira, celebra-a como se fosse a última, celebra-a como se fosse a única». Como realmente é, pois uma entrega absoluta, como foi a do Senhor, é maior do que todo o tempo e preenche inteiramente todo o espaço. Como o nosso, aqui e agora, nesta Sé Patriarcal, ou no mais humilde templo em que aconteça.

Responsabilidade também. Tratando-se do Corpo do Senhor em nós, transforma-nos com Ele num corpo de resposta. Sairemos logo à tarde em procissão, também assim nos oferecendo à cidade, com o Corpo eucarístico do Senhor Jesus. Mas já agora, como aqui estamos uns com os outros, estejamos também uns para os outros, na atenção, na delicadeza, na oração comum. E de seguida, em casa ou na rua, no trabalho e no lazer, na escola ou no hospital, seja onde for e quando for, sejamos igualmente corpo entregue e sangue derramado, isto é, gesto solidário e vida compartilhada.

Só assim irmãos caríssimos, só assim, esta Solenidade ficará inteiramente legitimada em nós e por nós. E seremos a memória viva do Senhor Jesus, para a salvação do mundo. Esta é também a nossa identidade missionária.


Sé de Lisboa, 26 de Maio de 2016


+ Manuel, Cardeal-Patriarca

segunda-feira, 12 de junho de 2017


«Algum tempo depois, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo: estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. 
Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada.
Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.»
Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. Jo 21, 1-14


Será este o tema que nos vai conduzir durante a nossa Peregrinação à Terra Santa.

O episódio passa-se nas margens do Mar da Galileia ao raiar da madrugada depois de uma noite de faina sem resultado. Apesar do cansaço de uma noite de trabalho e da bruma que paira ao nascer do dia, João fixa o seu olhar naquele vulto que os chama desde a margem e reconhece Jesus. Lá iremos, lá estaremos.

«É o Senhor!»

«É o Senhor!», assim O reconheceu um discípulo e mais depressa do que os outros. Mas por si e por todos.

Agora é connosco, que reconhecemos a presença de Jesus em tantos momentos da nossa vida, que só ganham sentido por isso mesmo e à luz do que Ele disse e fez, do que Ele continua a dizer e a fazer.

É bom visitar os lugares do seu primeiro reconhecimento. Onde nasceu, onde cresceu, viveu e morreu - para ainda estar mais connosco agora e seja e onde for. Mas aqueles lugares ficaram como sinal e apelo, no seu primeiro acontecer.

Ganharemos muito, ganharemos tudo em ir com os olhos bem abertos. Os "olhos da alma" sobretudo. Ganharão outra luz, que até na noite despontará como alvorada.

Boa viagem!

+ Manuel Clemente 



Queridos Peregrinos 

Começamos hoje a escrever-vos com regularidade para vos ajudar a preparar o caminho que nos há-de levar «aos Lugares relacionados com a história da nossa salvação». 

Serão sugestões de leitura, de meditação e de oração, sobre aquela terra e sobre o que ali nos aconteceu há dois mil anos. 

Não há melhor Guia da Terra Santa que os Evangelhos, como nos deixou escrito a Peregrina Egéria que no século IV partiu da nossa vizinha Galécia. Por isso vos convidamos desde já a uma redobrada atenção aos textos da Liturgia da Palavra que em cada Missa nos são propostos. Ali encontraremos alusão aos Lugares que iremos visitar.

Hoje queremos chamar a vossa atenção para o modo escolhido para fazermos em conjunto esta experiência: peregrinando. 

É tão forte e tão densa a experiência de visitar os Lugares Santos, que há quem diga, que pouco importa o modo como ali se vai. A minha experiência, já longa de muitos anos, diz-me o contrário. 

Em boa verdade, cada um daqueles Lugares é o que é e não deixa de o ser, sejam os visitantes peregrinos ou turistas. Mas a questão é mesmo essa: o que está em causa não é apenas o que se visita, não são apenas os Lugares… sou eu. E eu posso olhar a mesma realidade só com os olhos ou também com o coração. As mesmas pedras, a mesma paisagem, enfim, o mesmo Lugar, pode ser agradável, interessante e mesmo historicamente significativo. Mas, bem para lá dessa aparência, é memória viva e tangível desse Outro que veio ao meu encontro para trazer a boa-nova de que a vida não é uma contagem finita do meu tempo, mas antes aquela dádiva do Criador que permanece para lá do tempo. 

Uma coisa é olhar a realidade. Outra, bem diferente, é descobrir o sinal que ela me revela e que me remete para uma realidade maior. Uma coisa é o que eu vejo e descrevo, outra bem mais rica, é aquilo que ela me diz e como interpela a minha vida. Na Terra Santa, o turista preocupa-se com a estética, com a forma e com a ambiência. O peregrino, deixa-se tocar e comover diante do sinal da misericórdia de que aquela mesma realidade é prova. Passar ao lado deste significado de cada Lugar é, para nós cristãos, um desperdício de graça. 

Este contraste torna-se ainda mais gritante quando nem sequer a beleza está presente, quando não nos é agradável o que vemos, mas é determinante o que ali experimentamos. Se é deslumbrante a paisagem que se avista do cimo do Tabor, é desconcertante o caudal magro e lamacento do Jordão a jusante do Mar da Galileia; se é encantadora a simplicidade austera da Igreja da Multiplicação, pode ser de desconforto a primeira impressão da Basílica da Natividade, de aparência tão pouco “nossa”. No entanto, poucos lugares no mundo haverá onde o nosso coração se pode comover, como no estar contemplativo no Lugar da Transfiguração, o silêncio que fazemos diante do Lugar do Presépio ou o tocar as águas barrentas com que o Baptista baptizou o próprio Cristo. 

Creio pois firmemente que não há outra maneira cristã de percorrer a Terra Santa que não seja a de o fazer como peregrino. Ir de Lugar em Lugar com um coração mendicante, atento à memória que os Evangelhos me guardam, e diante deles descobrir o sentido e o alcance de cada gesto e de cada palavra do meu Senhor. A par do caminho que vou fazendo, outro faço dentro de mim, percorrendo a minha vida, confrontando-a com as propostas que Cristo fez, naquele tempo e naquela terra, e que me continua a fazer no hoje da minha vida. 

Peregrino é, pois, aquele que percorre a Palestina com tensão e atenção, de coração aberto e dócil ao que o Senhor lhe quer dizer na simples contemplação dos Lugares que foram seus e onde escreveu a história da Salvação. 

Mas esta certeza não nasce da minha simples experiência várias vezes repetida. Aprendi o sentido de peregrinar, antes de mais, com a Igreja, Santa e Mãe, ela própria peregrina sobre a Terra , que caminha rumo ao destino que o Senhor traçou para ela e para todos aqueles que, nela e com ela, atravessam o mundo. 

Aprendi depois com aqueles que o Senhor me pôs no caminho para me conduzir na minha própria peregrinação: este meu tempo de vida, num espaço determinado e pessoas concretas com quem condivido a minha condição de vivente. 

Aprendi ainda com judeus e árabes que encontrei naquele lugar, a terra que foi a d’Ele, descendentes do mesmo povo, sofredores das mesmas dores, apaixonados pelo seu chão, adoradores do mesmo Deus. 

Aprendi e continuo a aprender, porque esta aprendizagem faz-se peregrinando. Mas sei também que só saberei o que é ser peregrino no dia em que peregrinar já não há-de fazer sentido, no dia em que encontrar a Morada que procuro, o Descanso porque anseio, a Água que me mata a sede, a Plenitude que, por fim, há-de serenar o meu coração. 

Bom é Aquele que me faz peregrino e Se faz, Ele próprio, companhia do meu peregrinar. 

Rui Corrêa d’Oliveira 
Lisboa, 3 de Junho