segunda-feira, 24 de julho de 2017

«O poder do coração»






Conferência do Padre Pierbattista Pizzaballa
Meeting de Rimini
29 de Agosto de 2014


É difícil, em pouco tempo e neste contexto, entrar num tema tão vasto e complexo como o do Médio Oriente, hoje a ferro e fogo e em transformação radical e dramática.

Ainda mais difícil é relacionar esta situação trágica com “o poder do coração”,  tema do nosso encontro. Que poderá fazer o coração perante o drama humanitário que os media nos mostram há meses? Será com certeza preciso bem mais do que uma palavra amiga ou bons sentimentos.

Penso que esteja errado limitar-se a uma análise (admitindo que se consiga faze-la) política, social e histórica do que está a acontecer, sem ter também uma visão religiosa , isenta, que ajude a ler e a interpretar  os acontecimentos sem se deixar envolver neles. Estes dois âmbitos necessitam um do outro. Precisamos de especialistas que nos ajudem a compreender as mudanças radicais a que estamos a assistir do ponto de vista político, económico e social. Mas também precisamos de um olhar do alto, alargado, livre de medos e complexos.

Nestes últimos meses, em Jerusalém, fomos invadidos por pedidos e propostas vindos das mais imprevisíveis associações e movimentos internacionais de caracter absolutamente laico, que, preocupados com o que está a acontecer, se querem empenhar nas mais várias iniciativas de âmbito cultural, político e até mesmo militar para “salvar o cristianismo e a sua cultura no Médio Oriente,” e não só. São preocupações legítimas, como infelizmente constatamos, mas às quais falta o olhar de fé, o olhar de quem para além de acreditar nas próprias e várias capacidades de intervenção, confia por outro lado , entrega a própria vida a um Outro .Por outro lado significa : trabalhando, rezando e ouvindo todas as sugestões do coração, deixando que a procura apaixonada e livre da verdade indique caminhos desconhecidos ou inesperados, prontos a assumir a responsabilidade de dar corpo ao nosso compromisso pessoal a favor dos outros, com os outros.

Não vim para apresentar a crónica dos acontecimentos. Já a conhecemos através dos media e das várias análises sobre o que está a acontecer. Vou sobretudo dar a minha leitura dos factos , sabendo que serei necessariamente parcial e aproximativo.

O Médio Oriente em radical mudança
O Médio Oriente voltou com força à ribalta dos meios de comunicação social, mas agora chegou também às preocupações de muitos. Egipto, Israel e Palestina, Líbia e sobretudo Síria e Iraque estão no centro de uma profunda mudança ainda sem perspectivas definidas. A estabilidade que durante 40 anos caracterizou as relações (ou não-relações) entre estes países, acabou definitivamente, e estão a desenhar-se novos equilíbrios que ainda não conseguimos definir e que são forte preocupação para muitos, sobretudo para a pequena comunidade cristã e para as outras minorias. Acabou o Médio Oriente que conhecemos no se. XX, o que surgiu das ruínas do velho império otomano, do fim de diversos colonialismos e do nascimento de estados nacionais. Começou um novo período, cujo desenvolvimento não conseguimos ainda descortinar.

Este processo foi, porém, de certo modo “sequestrado” por movimentos e partidos religiosos que revolucionaram a natureza desta “primavera árabe” e a transformaram numa autêntica luta de poder entre as várias componentes religiosas e sociais do Médio Oriente, especialmente a luta entre chitas e sunitas. Uma luta de poder obviamente não isenta de interesses de vários géneros (políticos, económicos, energéticos, etc.) que não nos interessa aqui analisar. Sinal evidente de tal involução em relação ao momento inicial da primavera árabe é a perseguição de que os cristãos e as outras minorias religiosas foram vítimas nestes últimos meses e a consolidação de movimentos e partidos islâmicos – alguns muito extremistas.

Com efeito a relação com as minorias deteriorou-se devido a perseguições e instrumentalizações de vário género. Para compreender melhor a natureza das relações entre as várias comunidades religiosas do Médio Oriente, temos que partir do seu contexto histórico e social.

O Médio Oriente, muito mais que a Europa, foi sempre um fervilhar de diferenças religiosas. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo têm o seu coração e a sua raiz no Médio Oriente.  Cada uma delas conheceu divisões e evoluções internas vivíssimas : sunitas, chitas, cristãos ortodoxos, coptas, siríacos e tantíssimas outras comunidades surgiram ao longo dos séculos, tornando o Médio Oriente – único no género em todo o mundo – um lugar de convivências. Há que dizer que essas convivências nunca foram fáceis e não faltaram perseguições ao longo dos séculos. Mas nunca se assistiu a uma “limpeza religiosa” como aquela que agora se verifica.

Médio Oriente lugar de convivências? Sim, certamente mais do que qualquer outra parte do mundo. Explico o que digo através duma realidade que todos conhecemos. Se em Itália ou em qualquer país europeu, se no Ocidente é organizado  um momento de encontro/diálogo com pessoas de outras religiões, normalmente isso acontece  num ambiente que atenua as diferenças e que enfatiza as virtudes : queremos ver o melhor dos outros e eles querem oferecer-nos o melhor de si próprios. No Médio Oriente, quando encontramos um judeu, um muçulmano, um copta, um arménio, cada um conserva a sua identidade. Encontramo-nos no quotidiano, não num momento especial, vivemos juntos os mesmos problemas, cada um de nós com a sua cultura, a sua fé, as suas tradições. Só temos em comum as dificuldades do dia a dia, exactamente aquilo que seria deliberadamente excluído caso esse encontro tivesse lugar no Ocidente. E isto é que é conviver:  viver com os outros, sem prevaricações, sem imposições, sem espírito de conquista…

Importa compreender que as identidades religiosas são ainda hoje no Médio Oriente também identidades sociais e culturais. A fé não é só uma experiência religiosa pessoal, é também definição de uma identidade pessoal e social. A religião é determinante, tanto em sentido estrutural, como histórico, cultural e humano. É raro encontrar sinais de elementos laicos, no sentido dos que foram introduzidos no Ocidente pela Modernidade, onde Estado e Igreja são distintos e onde a fé é só um aspecto mais ou menos relevante da vida social. No Médio Oriente a religião está em todos os aspectos da vida quotidiana, pública e privada e embebe-a profundamente. Assim a maior parte da população continua a regular e a cadenciar a própria existência na base de um ethos religioso consolidado, típico dos vários grupos a que pertence e profundamente interiorizado pelos membros de cada comunidade.

A componente religiosa constitui quase sempre um elemento essencial na construção de uma identidade pessoal e tende a exprimir-se em alguns aspectos específicos, distintivos e frequentes, entre eles por exemplo a participação activa na oração ritual e nas celebrações,  o modo de vestir, a opção de expor e usar objectos e símbolos específicos do próprio  credo, a escolha dos nomes dos filhos. Além disso, cada individuo à nascença recebe um numero de identificação junto ao qual é colocada uma sigla que define a fé a que pertence. Essa torna-se pois parte integrante da sua identidade civil: cada um é definido  e considerado cristão, judeu ou muçulmano, quer seja praticante quer não. Por fim, muitos dos aspectos da vida do país são delegados às autoridades religiosas. Um exemplo significativo disto é o matrimónio: não existem matrimónios civis, o matrimónio é sempre religioso o que traz consequências notáveis a nível social.

A pertença religiosa, além de nos definir em relação a nós próprios, define-nos também em relação ao outro. A própria experiência religiosa e social é também definição do relacionamento com o outro, a nível pessoal e social. Dois habitantes de Jerusalém, apesar de terem a mesma cidadania, se pertencerem a duas religiões diferentes terão dois modos completamente distintos de reagir a problemas comuns e terão como referência dois modelos sociais completamente diferentes. Em suma, pode-se ser ateu, mas continua-se a ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
Esta forma de convivência inter-religiosa – diferente de integração, que é um desafio ocidental – caracterizou durante séculos o Médio Oriente e, apesar de nunca ter sido nem simples nem linear, é no entanto aquilo que define a sua constituição. É por isso que cristãos das diversas confissões, muçulmanos sunitas, chitas, yasidi, curdos, alawitas, druzos, etc, estão aqui ainda hoje no Médio Oriente.
A principal preocupação neste momento é exactamente a subida ao poder sobretudo na Síria e no Iraque mas não só, de movimentos islâmicos integralistas. As imagens que vemos quotidianamente abalam as nossas consciências. Refiro-me em especial ao chamado Estado Islâmico ou Califado, que elegeu como alvo de ataque não só as minorias não islâmicas, mas também os muçulmanos que não partilham da sua doutrina. 

As interrogações sobre estes movimentos estão hoje no centro das preocupações de inteiras comunidades religiosas em todo o Médio Oriente.

No interior das comunidades cristãs assiste-se a uma tensão crescente, à saudade de garantias perdidas, à tentação de partir que por vezes se torna uma necessidade, como vimos no Iraque. O que fizeram aos cristãos e aos yasidi na planície de Nínive é simplesmente vergonhoso.

A “limpeza religiosa” que mancha o chamado Estado Islâmico, mas que é latente noutros pontos dos países árabes, vai em primeiro lugar contra a história e o carácter do Médio Oriente e não pode ser silenciada. É preciso que todas as comunidades religiosas levantem as vozes contra esta ignomínia. O mundo islâmico começou finalmente a reagir a isto, mas honestamente pareceu-nos uma denúncia muito tímida. Os media árabes não deram grande destaque às declarações de vários leaders religiosos muçulmanos. Neste momento o diálogo inter-religioso não pode prescindir duma denúncia comum e forte do que está a acontecer. Assim exige a gravidade do momento e a necessidade de continuar a viver e a dialogar juntos.

Além disso é evidente que há que pôr fim a este tipo de fanatismo, nem que seja também pela força, depois de tomadas as garantias necessárias. O uso da força, no entanto, não resolverá nada sem um projecto de reconstrução em todos os aspectos. A força faz parar, destrói. Porém se não se constrói, o vazio criado pelo uso da força, dará origem a um maior extremismo. Porque há sempre alguém mais puro e mais justo do que tu…

Isto também é válido para o já antigo conflito israelo-palestiniano, de que queria falar o menos possível porque honestamente não sei que mais dizer a este propósito. A força, sem uma perspectiva de (re)construção social, económica, política, não levará senão a um novo recurso ao uso da força, numa espécie de círculo vicioso . Como é que se pode falar de paz ou de perspectiva de paz, se no coração estão sobretudo acumulados ódio, rancor, dor, desejo de vingança pelas violências sofridas, se não se constrói uma esperança? E não há família que não tenha tido experiências de violência…

A força nunca é o caminho. Pode por vezes ser necessária, como agora no Iraque, para abrir um caminho, mas nunca para o construir. O Médio Oriente, a começar pela Terra Santa, Israel e Palestina, tem uma necessidade urgente e dramática de individuar uma nova via para delinear o próprio futuro, que só pode ser construído em conjunto, com todas as diferentes sensibilidades que o compõem, e nunca um contra o outro.

Cristãos, muçulmanos, curdos, judeus e todas as outras comunidades religiosas e étnicas, são parte integrante da vida destes países e não vão desaparecer. Pensar conseguir faze-lo é uma ilusão e ignorá-los é cegueira.

Verifica-se que, em simultâneo com a lastimável traição da convivência histórica entre as diversas comunidades religiosas, existem apesar de tudo em algumas cidades iraquianas ocupadas por fundamentalistas, formas de solidariedade que importa assinalar.

Há poucas semanas, numa visita à Síria, na massacrada cidade de Alepo constatei como desconhecidos se uniram perante necessidades e emergências comuns. Conto só alguns exemplos.

A cidade de Alepo está há meses sem água e o único recurso são os poços privados. Como é óbvio nem todos os podem ter. E como falta também a electricidade ( não há mais do que duas horas por dia), não é possível ter água sem ter um gerador. Por sua vez quase não se encontra gasóleo, e o que se arranja é caríssimo. Enfim, para uma família vulgar é impossível resolver este problema. Isto é, é impossível para quase toda a população  que ainda resta e que é formada em grande parte por pobres que não têm para onde ir. Quem tem poços são as principais instituições : mesquitas, igrejas, hospitais, etc. Vi pessoalmente cristãos e muçulmanos em fila na igreja para ter água e cristãos levarem água aos vizinhos muçulmanos e vice-versa. No nosso convento do Terra Santa College de Alepo não há gerador, mas o vizinho muçulmano tem um. Então os outros vizinhos, todos muçulmanos, fazem a colecta do dinheiro para o gasóleo, o vizinho alimenta o gerador e os frades conseguem desta maneira ter água para o bairro.

Os jesuítas, através do Jesuit Relief Service e usando uma estrutura das irmãs franciscanas de Alepo, organizaram uma cozinha para bairros inteiros da cidade. Mais de 10.000 refeições saem diariamente daquele convento para serem distribuídas por todos. Os alimentos vêm de instituições islâmicas, as irmãs organizam como sabem tão bem , e voluntários cristãos e muçulmanos levam quotidianamente o alimento a quem precisa. É de notar que deslocar-se na cidade é um perigo e ninguém, quando sai de casa, sabe se vai voltar. Não obstante, há muitos que ainda saem e arriscam a pele, para fazer qualquer coisa pelos outros. Não só pelos seus, mas pelos outros sem adjectivos.

Durante a minha permanência em Alepo, os nossos vizinhos, isto é, a catedral e o episcopado católico sírio, foram bombardeados duas vezes. Na primeira vez a igreja foi destruída pelos rebeldes. Na segunda o episcopado foi atingido pelas forças governamentais, para assim ter a par conditio! Em ambos os casos, todos sem distinção se desdobraram para ajudar, apoiar, encorajar. Nem que fosse só para estar ao nosso lado. Muitas vezes, de facto, não se pode fazer nada além de assistir impotentes a este drama. Poderia dar muitos mais exemplos e testemunhos. Mas creio já ter dado ideia do que se passa.

O Médio Oriente está em chamas. As antigas formas de convivência parecem esgotadas, e as novas não são claras. Assistimos a fenómenos contraditórios e indecifráveis. Traição de amizades antigas e criação de novas. Negação do outro e procura do outro. Ao lado do coração que traiu está o coração que amou, dando de si e entregando-se. Estes gestos e os de tantíssima gente anonima, presentes em todo o lado, constituem a força secreta e necessária para ir mais além e não desistir apesar da escuridão do momento. Para não cair sob o poder de Satanás. O vizinho que está contigo, que diante de tanta gente tem um gesto de amizade, dá-te o fôlego necessário para acreditar que é possível continuar a viver aqui juntos, diferentes e unidos.

O poder do coração
Não sou um sonhador. Não nego os problemas dramáticos, as traições e as crueldades que interrogam as consciências de todos, que interpelam em especial o mundo islâmico, que nos exigem ser firmes e claros ao pedir-lhes para terem também uma posição igualmente firme e clara contra tudo isto. Mas creio que não baste. É necessário ter sempre uma perspectiva definida que seja de reconstrução, de vida. Não basta denunciar, é preciso indicar o caminho.

O mal que está diante de nós interpela-nos como cristãos e pede-nos para o sermos mais , para o sermos inteiramente. É nestas circunstâncias que somos chamados a viver totalmente a nossa vocação cristã, sem fugas e sem medos. O mal não deve assustar um cristão.

“Permanecer perfeitamente tranquilos. Não com uma apatia estoica e impassibilidade diante do desabar do mundo, mas com a certeza que a humanidade e o mundo estão nas mãos de Deus  Nenhuma destruição pode comprometer  o cumprimento da Sua vontade; nenhuma ruína pode subtrair o homem ao Seu amor omnipotente. A vida do cristão é sempre a mesma. Deus não te poupa a nenhuma dificuldade, a nenhuma provação; Deus parece abandonar-te à força destrutiva do mal; mas se Ele viver em ti, será o mal a ser destruído”, Divo Barsotti, ”A espera - diário 1973-1975”.

Ouve-se frequentemente declarações e análises desesperadas da situação. Parece estarmos perto do fim de tudo. Acabaram provavelmente os velhos modelos, mas com isso não acabou nem o mundo nem nós mesmos. No entanto não é raro ouvir à nossa gente  e até mesmo aos nossos religiosos, palavras de desânimo e resignação. Também se fala de choque de civilizações  e de uma espécie de chamada às armas não muito disfarçada, para a nossa defesa. Nada disto tem a ver com a fé cristã.

Assim estamos a esquecer um facto fundamental: o cristianismo nasce na cruz e não pode prescindir dela. Jesus torna-se rei do mundo na cruz, não com o sucesso da multiplicação dos pães. Enfim, o cristianismo nasce de uma falência humana, de uma derrota. E de um coração trespassado. Quando falamos do poder do coração, é para lá que devemos olhar, para aquele coração que é a medida do amor de Deus e consequentemente do nosso. O nosso agir de cristãos deve ter como medida aquele coração. Esquecemos muitas vezes isto e  caímos na tentação de pensar que serão as nossas obras que nos vão salvar, mesmo aqui na terra.

Para um cristão a análise de qualquer realidade não é completa se não for feita tendo também Cristo como referência. Só tendo Cristo como referência consegues compreender a verdade de um acontecimento. Não é através de uma ideologia, mas sim através de uma Pessoa, que se torna modelo do teu agir e pensar.

Como não recordar o episódio do Evangelho Mc 4, 35-41,  do barco agitado pelas ondas, o pânico dos discípulos e a repreensão: ”Porque tendes medo? Ainda não tendes fé?” Não sei se as várias estratégias ocidentais e internacionais podem ajudar. Talvez sim. Devem-se encontrar urgentemente perspectivas políticas. Mas não serão elas a salvar o cristianismo no Médio Oriente. A barca de Pedro andará sempre agitada e haverá sempre alguém lá dentro a dizer o que fazer. Mas só o Seu comandante, o Senhor, poderá acalmar a tempestade. 

A nossa presença será salva pelos mais pequenos, pelos que se comprometem com coragem e desafiam a morte ,amando o irmão gratuitamente, até ao ponto de se deixar trespassar. Sendo cristãos até ao fim.

As imagens que nos mostram do Médio Oriente são oprimentes e desconsoladoras; é legítimo interrogarmo-nos sobre o que devemos ou podemos fazer , mas é obrigatório  empenharmo-nos concretamente para pôr fim a esta tragédia que diz respeito a todos. Porém o nosso agir tem que ser acompanhado pela convicção  profunda e serena de que, para ter fruto, deve estar unido a Cristo.

“Toda a solidariedade e união com os homens dá seguimento à solidariedade de Jesus com toda a humanidade, mas se esta acabasse, seria prova da falência suprema porque ela consuma-se e torna-se perfeita na morte na cruz. A morte na cruz é o caminho para a ressurreição e a ressurreição já não é a solidariedade de Jesus com os homens, mas sim a união dos homens com Jesus ressuscitado.

“Toda a solidariedade com os homens, toda a união com eles é o meio e o caminho necessários para a união dos homens com Deus; se ela não levar a esta união com Deus, então é vã, não salva, faz-nos unicamente participantes da dor, da pobreza, da morte: não nos dá a vida”: Divo Barsotti. “A espera. Diário 1973-1975.

Quero concluir com outras duas imagens de alguns meses atras, também ligadas ao Médio Oriente, mesmo que pareçam de há anos, completamente diferentes do que vemos hoje.

A primeira diz respeito ao encontro entre o Patriarca Bartolomeu e o Papa Francisco no Santo Sepulcro, em Jerusalém. Aquela basílica, que guarda a memória da morte e ressurreição de Cristo, mas também das tristes divisões entre cristãos, teve pele primeira vez da sua história o encontro entre duas realidades, a ortodoxa e a católica, que durante anos se combateram. É verdade que as divisões persistem e ainda hoje depois daquele momento, parece ter voltado tudo a ser como dantes. Mas, mesmo que quiséssemos, não é como dantes. Aqueles sinais são poderosos e comprometem os que os propõem. As duas igrejas comprometeram-se a confrontar-se de maneira positiva. O caminho a fazer é ainda longo, mas foi aberto e delineado.

A segunda imagem está ligada ao momento de oração no Vaticano, desejado pelo Papa Francisco e pelo Patriarca Bartolomeu, com os presidentes dos dois países inimigos de sempre, Israel e Palestina.

É verdade, também neste caso, que politicamente os dois presidentes não podiam nem podem fazer muito, e o Papa ainda menos. Imediatamente a seguir desencadeou-se uma violência inaudita e inexplicável entre os dois intervenientes, que parece quase querer negar aquele momento histórico. Mas também neste caso os sinais foram dados e o caminho indicado. As imagens de morte que temos visto até agora, os bombardeamentos, os mísseis, mas sobretudo o ódio profundo que é alimentado com esta violência, não devem ser separadas daquelas dos dois presidentes a rezar juntos pela paz. Elas dizem-nos que é possível. Ajudam-nos a erguer o olhar. Aquecem-nos o coração.

O Médio Oriente é também isto.

No Médio Oriente precisamos de tudo: de ajuda financeira, militar, politica, de mediadores e de apoios… mas sobretudo precisamos de acreditar que ainda é possível sermos amigos. Os testemunhos dizem-nos que, apesar de tudo, e graças aos mais pequenos, esta força ainda está viva.

+ Pierbattista



(Tradução de Eugénia Montera)

sábado, 22 de julho de 2017

“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem e o campo é o mundo.”

16º Domingo do Tempo Comum – Ano A
23 Julho 2017





EVANGELHO – Mt 13,24-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
Jesus disse às multidões mais esta parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se a um homem
que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo,
semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e deu fruto,
apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe:
‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo?
Donde vem então o joio?
Ele respondeu-lhes: ‘Foi um inimigo que fez isso’.
Disseram-lhe os servos:
‘Queres que vamos arrancar o joio?’
‘Não! – disse ele –
não suceda que, ao arrancardes o joio,
arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa
e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros:
Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar;
e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro’“.

Jesus disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se a um grão de mostarda
que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes,
depois de crescer, é a maior de todas as hortaliças
e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos”.
Disse-lhes outra parábola:
“O reino dos Céus pode comparar-se ao fermento
que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha,
até ficar tudo levedado”.
Tudo isto disse Jesus em parábolas,
e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta,
que disse: “Abrirei a minha boca em parábolas,
proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo”.

Jesus deixou então as multidões e foi para casa.
Os discípulos aproximaram-se d’Ele e disseram-Lhe:
“Explica-nos a parábola do joio no campo”.
Jesus respondeu:
“Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem
e o campo é o mundo.
A boa semente são os filhos do reino,
o joio são os filhos do Maligno
e o inimigo que o semeou é o Demónio.
A ceifa é o fim do mundo
e os ceifeiros são os Anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo,
assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus Anjos,
que tirarão do seu reino todos os escandalosos
e todos os que praticam a iniquidade,
e hão-de lançá-los na fornalha ardente;
aí haverá choro e ranger de dentes.
Então, os justos brilharão como o sol
no reino do seu Pai.
Quem tem ouvidos, oiça”.

AMBIENTE
Continuamos em contacto com as “parábolas do Reino”. O Evangelho deste domingo apresenta-nos mais um bloco de três imagens ou comparações (“parábolas”) que pretendem revelar aos discípulos e às multidões que rodeiam Jesus, a realidade do “Reino”.
Já vimos, no passado domingo, porque é que Jesus pregava por “parábolas”: porque a linguagem parabólica é uma linguagem rica, expressiva, questionante; porque a “parábola” é uma excelente arma de controvérsia, muito útil em contextos polémicos; porque a “parábola” faz as pessoas pensar e incita-as à procura da verdade. Por tudo isto, as “parábolas” são uma linguagem privilegiada para apresentar o Reino, para incitar as pessoas a descobrir o Reino e para as levar a aderir ao Reino.

Das três parábolas que nos são hoje propostas, duas (o grão de mostarda e o fermento) procedem da tradição sinóptica; a outra (a parábola do trigo e do joio) só aparece em Mateus (além de aparecer também numa antiga colecção de “ditos” de Jesus, conhecida como “Evangelho de Tomé”).

Também desta vez percebe-se – tanto nas parábolas, como nas explicações que as acompanham – a preocupação “pastoral” de Mateus: ele não é um jornalista a transcrever o que Jesus disse; mas é um “pastor” que procura exortar, animar, ensinar e fortalecer a fé dessa comunidade cristã a que o Evangelho se dirige.

MENSAGEM
A primeira parábola que nos é proposta é a parábola do trigo e do joio (vers. 24-30). Trata-se de um quadro da vida quotidiana: há um “senhor” que semeia boa semente no seu campo, um “inimigo” que semeia o joio (nome de uma erva gramínea que nasce entre o trigo e o danifica) e “servos” dedicados, preocupados com o futuro da colheita. Tudo parece normal; o anormal é a reacção do “senhor” à “crise”: dá ordens para que deixem crescer trigo e joio lado a lado e que só na altura da ceifa seja feita a selecção do bom e do mal, do que é para queimar e do que é para guardar nos celeiros.

A parábola deve ser entendida no contexto do ministério de Jesus. Ele conviveu com os pecadores, com os marginais, com os que levavam vidas moralmente condenáveis. Sentou-se à mesa com gente desclassificada, deixou-se tocar por pecadoras públicas, convidou um publicano a integrar o seu grupo de discípulos… Com esse comportamento “escandaloso”, Ele quis dizer a todos esses que a religião oficial excluía, que Deus os amava e que os convidava a fazer parte da sua família, a integrar a comunidade da salvação, a serem membros de pleno direito da comunidade do “Reino”.

Os fariseus consideravam inaceitável a atitude de Jesus. Para eles, quem não cumpria a Lei tinha de ser excluído do Povo santo de Deus e não tinha o direito de fazer parte do “campo” de Deus. A “lógica” dos fariseus condiz com a “lógica” de Deus?

Nesta parábola, Jesus pretende dar-nos uma lição sobre a “lógica” de Deus. Sugere que a “lógica” de Deus não é uma “lógica” de destruição, de segregação, de exclusão, mas é uma “lógica” de amor, de misericórdia, de tolerância. O Deus de Jesus Cristo é um Deus paciente e misericordioso, lento para a ira e rico de misericórdia, que dá sempre ao homem todas as oportunidades para refazer a existência e para integrar plenamente a comunidade do “Reino”. Ele tem um plano de salvação e de graça que oferece gratuitamente a todos os homens, bons e maus; depois, no tempo oportuno, ver-se-á quem são os maus e quem são os bons. De resto, não é muito fácil separar o bom e o mau, porque as duas realidades coexistem em todos os “campos”, em todos os corações.
O “senhor” da parábola é esse Deus paciente, que dá ao homem todas as oportunidades, que não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva.

Os “servos” com excesso de zelo são os crentes (que trabalham no campo do “senhor”) rígidos e intolerantes, incapazes de olhar o mundo e o coração dos homens com a bondade, a serenidade e a paciência de Deus.

O “campo” é o mundo e a história, onde coexistem o trigo (os sinais de esperança, de vida, de amor que tornam este mundo mais belo e mais feliz) e o joio (os sinais de morte, responsáveis pelo sofrimento, pela opressão, pela escravidão). É também o coração de cada homem e de cada mulher, capaz de opções de vida e capazes de opções de morte.

Jesus garante: os métodos de Deus não passam pelo castigo imediato, pela intolerância face às opções dos homens, pela incompreensão dos erros dos seus filhos; os métodos de Deus passam por deixar os homens crescer em liberdade, integrando a comunidade dos filhos de Deus.

Nos vers. 36-43, temos a aplicação que Mateus faz da parábola do trigo e do joio à vida da sua comunidade.

Nesta “explicação”, o eixo central da parábola original passa a ser outro. A problema já não é se na “lógica” de Deus o trigo e o joio podem crescer juntos, mas é a questão do “juízo” que espera bons e maus: Mateus insiste que, no “dia da colheita” (imagem que, nos profetas, se identifica com o dia do “juízo de Deus” sobre os homens e o mundo), os bons receberão a recompensa e os maus receberão o castigo.

Estamos nos finais do séc. I (década de 80). Já passou o entusiasmo dos primeiros anos; a vida das comunidades cristãs é marcada pela monotonia, pela falta de entusiasmo e empenho, pela mediocridade, pelo laxismo. Os cristãos aburguesaram-se e nem sempre vivem de forma empenhada e comprometida a sua fé. Como despertar de novo nos crentes o entusiasmo inicial?

Mateus vai usar os métodos dos pregadores do seu tempo… recorrendo à linguagem e aos símbolos da apocalíptica, Mateus lembra aos cristãos da sua comunidade o juízo futuro de Deus. Os símbolos utilizados (o joio queimado no fogo, a fornalha ardente, o choro e o ranger de dentes) destinam-se a impressionar os crentes, a obrigá-los a inflectir os seus esquemas de vida e a voltar à fidelidade ao Evangelho. Portanto, não temos aqui uma descrição de como será o “fim do mundo”; o que temos aqui é um convite urgente e emocionado à conversão, ao aprofundamento do compromisso com Jesus e com o Evangelho.

O Evangelho deste domingo propõe-nos ainda duas outras parábolas: a parábola do grão de mostarda (vers. 31-32) e a parábola do fermento (vers. 33). São duas parábolas muito semelhantes, quer quanto ao conteúdo, quer quanto à forma.

Numa e noutra, o quadro é o mesmo: sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final. O grão de mostarda é uma semente muito pequena, que no entanto pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões; o fermento apresenta um aspecto perfeitamente insignificante, mas tem a capacidade de fermentar uma grande quantidade de massa. Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do “Reino”. O “Reino” anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento: parece algo insignificante, que tem inícios muito modestos e humildes, mas contém potencialidades para encher o mundo, para o transformar e renovar. Trata-se de um dinamismo de vida nova que começa como uma pequena semente lançada à terra numa província obscura e insignificante do império romano, mas que vai lançar as suas raízes, invadir história dos homens e potenciar o aparecimento de um mundo novo.

Com estas parábolas, Jesus responde às objecções daqueles que não acreditavam que da mensagem de um carpinteiro de Nazaré, pudesse surgir uma proposta de vida, capaz de fermentar o mundo e a história. Ele garante-nos que o “Reino” é uma realidade irreversível, que veio para ficar e para transformar o mundo. Escutar estas parábolas é receber uma injecção de ânimo e de esperança, capaz de levar a um compromisso mais sério e mais exigente com o “Reino”.


(In, www.dehonianos.org)




terça-feira, 18 de julho de 2017

O Status quo



O “Status quo”, ou ”Statu quo” como habitualmente é chamado na Terra Santa e em muitas publicações, refere-se à situação em que se encontram as comunidades cristãs da Terra Santa nas suas relações com os governos das religiões. 

Especificamente o “Status quo” indica a situação em que se deparam essas comunidades nos Santuários da Terra Santa. Situação que diz respeito tanto à propriedade quanto aos próprios direitos e também os direitos simultâneos com os outros ritos: no Santo Sepulcro, na Basílica da Natividade em Belém e no Túmulo de Maria em Jerusalém.




A vida nos Santuários é inseparável dos regimes políticos da Terra Santa. A situação de hoje é fruto de um lento processo que acabou por se consolidar. Durante os séculos XVII e XVIII, os gregos ortodoxos e católicos estiveram em contínua controvérsia em relação a alguns Santuários (Santo Sepulcro, Túmulo de Maria e Belém). Foi um período de “lutas fraticidas e intervenções políticas”. Através destes dolorosos acontecimentos chegou-se a uma situação ratificada num acordo assinado a 8 de Fevereiro de 1852 e designado com o termo de “Status quo”.

O “Status quo” nos Santuários da Terra Santa, especialmente no Santo Sepulcro, determina os sujeitos da propriedade dos Lugares Santos. determinando ainda, de forma concreta, os espaços dentro do Santuário como também os horários e os tempos das funções, as movimentações e os percursos, bem como o modo como devem ser realizados, se lidos ou cantados, por exemplo.

É necessário recordar que além dos latinos, as comunidades oficiais no Santo Sepulcro são: os gregos, os arménios, os coptas e os sírios. Assim, cada mudança, por mais simples que seja, requer o acordo de todas as comunidades. No Santo Sepulcro estas comunidades orientam-se segundo um calendário próprio para cada rito. No que se refere à comunidade católica, os franciscanos seguem as festas segundo o grau de solenidade que precede a reforma do Vaticano II (este foi um direito adquirido no Status quo).

Para melhor compreender tal situação, é necessário analisar alguns acontecimentos históricos. Logo após o seu ingresso em Constantinopla, Maomé II proclamou o Patriarca Grego daquela cidade como autoridade religiosa e civil para todos os cristãos residentes em seu império. Assim, a comunidade ortodoxa da Grécia, aproveitando o facto de serem súbditos do império otomano, pode influir na Terra Santa e exercer maior influência sobre os sultões, conseguindo vantagens em seu favor nas negociações referentes aos Santuários. O clero helénico conseguiu progressivamente substituir o clero nativo pelo seu clero grego. 

Desde 1634 o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém será sempre um helénico. Neste período iniciam também as reivindicações por parte do clero grego sobre os Lugares Santos. Em 1666 o Patriarca Ortodoxo Germano reivindicou os direitos ortodoxos da Basílica de Belém, como fizeram anteriormente os Patriarcas Sofrónio IV (1579-1608) e Teofanio (1608-1644). Semelhantes reivindicações foram feitas em seguida, exigindo o Santo Sepulcro em Jerusalém. 

Tais tentativas foram vetadas sobretudo graças à intervenção de Veneza e da França junto à ”Sublime Porta” (assim chamada a instância suprema no Império Otomano). 

Em 1633 o Patriarca Teofanio obteve uma decisão datada do tempo de Omar (638) que conferia ao Patriarca Grego ortodoxo os direitos exclusivos sobre a Gruta da Natividade, o Calvário e a Pedra da Unção. As Potências Ocidentais conseguiram obter, sobre a pressão do Papa Urbano VII, a anulação da decisão. Todavia, esta decisão foi emanada uma segunda vez em 1637. Neste mesmo período Veneza, Austrália e Polónia estavam em guerra contra o Império, não tendo assim nenhuma influência a favor dos franciscanos. 

A situação tornou-se mais dramática ainda em 1676 quando o Patriarca Dositeu (1669-1707) conseguiu outra decisão com a qual obteve o uso exclusivo de posse do Santo Sepulcro. Em seguida houve protestos ocidentais, e a Sublime Porta achou por bem nomear um tribunal especial para examinar os diversos documentos. Em 1690, com a oportuna decisão, foi declarado pelo tribunal que os franciscanos seriam os legítimos proprietários da Basílica. Deste momento em diante as potências ocidentais foram sempre mais activas em relação ao Governo Otomano, para garantir os direitos católicos nos Lugares Santos. Foi assim que se prosseguiu com a paz de Carlowitz (1699), Passarowitz (1718), Belgrado (1739) e Sistow (1791). Todavia os resultados efectivos de tais intervenções não foram grandes. 

Em 1767, também na sequência dos muitos confrontos violentos e dos vandalismos que envolveram a população local, os Gregos Ortodoxos e os Franciscanos receberam por parte da Sublime Porta uma decisão que concedia aos Gregos Ortodoxos a Basílica de Belém, o Túmulo de Maria e quase inteiramente a Basílica do Santo Sepulcro. Não obstante os repetidos apelos do Papa Clemente XIII às potências ocidentais, a decisão foi confirmada e fixou de maneira já definitiva a situação dos Lugares Santos até os dias de hoje, salvo alguns pequenos detalhes. 

No século XIX a questão dos Lugares Santos transformou-se numa contenda política, especialmente entre a França e a Rússia. A França obteve a proteção exclusiva sobre os direitos dos católicos, e enquanto isso, a Rússia conseguia o mesmo sobre os cristãos ortodoxos. Em 1808 um grande incêndio na Basílica do Santo Sepulcro destruiu quase completamente a edícula cruzada do Sepulcro. 

Os gregos obtiveram a permissão de reconstruir uma nova edícula, a actualmente existente. 

Em 1829 foram reconhecidos aos arménios ortodoxos, de maneira definitiva, os actuais direitos na Basílica. 

Em 1847 os gregos retiraram a estrela de prata situada sob o lugar do nascimento do Senhor na Gruta de Belém. Sobre a estrela, havia uma frase em latim que atestava a propriedade latina do lugar. 

Em 1852, o embaixador francês pediu, junto à Sublime Porta em nome das Potências católicas, a reparação dos direitos dos franciscanos anteriores ao ano de 1767 e em particular a recolocação da estrela em Belém. O imperador otomano, com a pressão do Czar Nicolau, refutou e emanou um mandato com o qual decretava que o Status quo (isto é, conforme a situação vigente desde 1767) deveria ser mantido. Daí em diante, não obstante as inúmeras tentativas e as diversas guerras sucessivas a situação permaneceu imutável, ainda que a estrela tenha sido colocada no seu lugar. Nem mesmo depois da queda do Império Otomano e da criação do mandato britânico o Status quo foi modificado.

Tal situação hoje é considerada um facto conquistado. 
  As relações entre as diversas comunidades cristãs ainda são reguladas pelo Status quo, porém são cordiais e amigáveis.

  O diálogo ecuménico conseguiu moderar os conflitos históricos.

  Desapareceu, pelo menos por parte dos católicos, a acusação de “usurpação” dos Lugares Santos. Muito pelo contrário, acredita-se hoje que a pluralidade de presença cristã nesses Lugares contribui para uma riqueza preciosa a preservar.

  Os periódicos encontros e as relações entre as diversas comunidades, concentram-se hoje sobretudo sobre o restauro das Basílicas e sobre a possibilidade de uma melhor distribuição das diferentes liturgias.


As decisões são tomadas de comum acordo entre as diferentes comunidades religiosas, sem qualquer intervenção do exterior, sejam elas de carácter político ou civil.

(in, http://pt.custodia.org)