Durante este mês de Agosto, Jesus convida-nos a antecipar a nossa Peregrinação, levando-nos com Ele a percorrer o Norte da Palestina, desde o Mar da Galileia, até ao sul do Líbano.
Em Setembro estaremos em três destes Lugares: o Lugar da Multiplicação, o Mar da Galileia e Cesareia de Filipe.
Propomos assim que acompanhem de modo particular estas viagens de Jesus através do Evangelho de cada Domingo.
Domingo 6 de Agosto
EVANGELHO – Mt 14,13-21
Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
quando Jesus ouviu dizer que João
Baptista tinha sido morto,
retirou-Se num barco para um local
deserto e afastado.
Mas logo que as multidões o souberam,
deixando as suas cidades, seguiram-n’O a
pé.
Ao desembarcar, Jesus viu uma grande
multidão
e, cheio de compaixão, curou os seus
doentes.
Ao cair da tarde, os discípulos
aproximaram-se de Jesus
e disseram-Lhe:
“Este local é deserto e a hora avançada.
Manda embora toda esta gente,
para que vá às aldeias comprar alimento”.
Mas Jesus respondeu-lhes:
“Não precisam de se ir embora; dai-lhes
vós de comer”.
Disseram-Lhe eles:
“Não temos aqui senão cinco pães e dois
peixes”.
Disse Jesus: “Trazei-mos cá”.
Ordenou então à multidão que se sentasse
na relva.
Tomou os cinco pães e os dois peixes,
ergueu os olhos ao Céu e recitou a
bênção.
Depois partiu os pães e deu-os aos
discípulos
e os discípulos deram-nos à multidão.
Todos comeram e ficaram saciados.
E, dos pedaços que sobraram, encheram
doze cestos.
Ora, os que comeram eram cerca de cinco
mil homens,
sem contar mulheres e crianças.
AMBIENTE
No capítulo 13 do
Evangelho segundo Mateus, começa uma longa secção que poderíamos intitular
“instrução sobre o Reino” (cf. Mt 13,1-17,27).
Na primeira parte desta
secção (cf. Mt 13,1-52), Jesus apresentou em parábolas a realidade do Reino
(como vimos, aliás, nos domingos anteriores). Como é que os interlocutores de
Jesus reagiram, frente a essa apresentação viva, popular, interpeladora,
questionante? Aderiram à proposta de Jesus?
A resposta a esta
questão vai ser dada na segunda secção da “instrução sobre o Reino” (cf. Mt
13,53-17,27). De uma forma geral, a comunidade judaica responde negativamente
ao desafio apresentado por Jesus. Quer os nazarenos (cf. Mt 13,53-58), quer
Herodes (cf. Mt 14,1-12), quer os escribas, quer os fariseus, quer os saduceus
(cf. Mt 15,1-9; 16,1-4. 5-12) recusam embarcar na aventura do Reino. Diante
dessa recusa, Jesus volta-Se, cada vez mais decisivamente, para o pequeno grupo
dos seus seguidores – os discípulos. Esse pequeno grupo vai-se definindo cada vez
mais como a comunidade do Messias, que acolhe as propostas de Jesus e aceita o
Reino. As multidões continuam a seguir Jesus; mas, cada vez mais, é aos
discípulos que Jesus Se dirige e a quem destina a sua “instrução”.
O texto que nos é
proposto neste domingo situa-nos no âmbito de uma refeição. O “banquete” é,
para os semitas, o momento do encontro, da fraternidade, em que os convivas
estabelecem entre si laços de familiaridade e de comunhão. É, portanto, símbolo
desse mundo novo que há-de vir e no qual todos os homens se sentarão à mesa de
Deus para celebrar a fraternidade, a igualdade e a felicidade sem fim.
Torna-se, pois, um símbolo privilegiado desse Reino para o qual Jesus veio
convidar os homens.
MENSAGEM
Na introdução ao
episódio de hoje, Mateus anota que Jesus se retirou para o deserto, seguido por
uma “grande multidão”; e que, impressionado pela fome de vida de toda essa
gente, Se encheu “de compaixão e curou os seus doentes” (vers. 13-14).
Provavelmente, Mateus
quer sugerir, com esta referência, que Jesus é um novo Moisés, cuja missão é
libertar o seu Povo da escravidão, a fim de conduzi-lo à terra da liberdade e
da vida plena. Como é que vai fazê-lo? Conduzindo-o ao deserto…
O deserto é, para
Israel, o tempo e o espaço do encontro com Deus; aí, Israel aprendeu a
despir-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua
auto-suficiência, para descobrir que cada passo em direcção à liberdade, cada
pedaço de pão caído do céu, cada gota de água que brota de um rochedo, é um
“milagre” que é preciso agradecer ao amor de Deus. Tudo é um dom de Deus, que o
Povo deve acolher com o coração agradecido. O deserto é ainda o lugar e o tempo
da partilha, da igualdade, em que cada membro do Povo conta com a solidariedade
do resto da comunidade, onde não há egoísmo, injustiça, prepotência,
açambarcamento dos bens que pertencem a todos, e em que todos dão as mãos para
superar as dificuldades da caminhada (no deserto, quem é egoísta,
auto-suficiente e não aceita contar com os outros, está condenado à morte).
É esta experiência que
Jesus vai convidar os discípulos a fazer. Vai ensinar-lhes – com uma lição
concreta – que tudo é um dom que deve ser agradecido ao amor de Deus; e vai
ensinar-lhes também que os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao
serviço dos irmãos. É deste processo libertador – que conduz do egoísmo ao amor
– que vai nascer a comunidade do Reino.
A história da
multiplicação dos pães apresenta todas as características de uma lição,
destinada a demonstrar como é que deve viver quem quer aderir ao Reino.
O primeiro momento desse
processo pedagógico destinado a formar os membros do Reino tem a ver com a
constatação da fome do mundo e com a responsabilização da comunidade do Reino
nesse problema.
Quando os discípulos Lhe
pedem que mande a multidão embora, para que ela encontre comida (lavando as
mãos face à situação de necessidade em que a multidão está), Jesus pede-lhes:
“dai-lhes vós de comer” (vers. 16). Ensina-lhes, dessa forma, que têm uma
responsabilidade inalienável face a esse desafio que o mundo dos pobres todos
os dias grita… Depois disto, nunca um discípulo de Jesus poderá dizer que não
tem nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais
desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado – de pão, de alegria, de apoio, de
esperança – é da responsabilidade dos discípulos de Jesus. A dinâmica do Reino
passa pela solidariedade que torna todos os cristãos responsáveis pelas
necessidades dos pobres.
No segundo momento deste
processo pedagógico, Jesus ensina como dar resposta a este desafio. Começa por
pedir aos discípulos que façam a listagem dos bens disponíveis; depois, toma os
“cinco pães e dois peixes”, recita a bênção e manda repartir por todos os
presentes… E todos comeram até ficarem saciados.
A lição é clara: diante
do apelo dos pobres, a comunidade do Reino tem de aprender a partilhar. “Cinco
pães e dois peixes” significam totalidade (“sete”): é na partilha da totalidade
do que se tem que se responde à carência dos irmãos. É uma totalidade
fraccionada e diversificada mas que, posta ao serviço dos irmãos, sacia a fome
do mundo. A comunidade do Reino é, portanto, não só uma comunidade que se sente
responsável pela fome dos irmãos, mas também uma comunidade de coração aberto,
disposta a repartir tudo o que tem… É uma comunidade que venceu a escravidão do
egoísmo, para fazer a experiência da partilha que sacia e que torna todos os
homens irmãos.
No terceiro momento
deste processo pedagógico, Jesus dá a razão para a partilha. “Tomou os cinco
pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção” (vers. 19). A
“bênção” é uma fórmula de acção de graças, na qual se agradece a Deus pelos
seus dons. Isso significa, em concreto, reconhecer que algo que se possui é um
dom recebido de Deus… Para quem? Para um único homem ou para uma única família?
Mas Deus não é o Pai de todos, que se preocupa com todos e que a todos ama da
mesma forma? Portanto, “pronunciar a bênção” é reconhecer que determinado dom
veio de Deus e que pertence a todos os filhos de Deus. Aquele que recebeu esse
dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou
determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma
gratuidade com que o recebeu. À comunidade do Reino é proposto que aprenda a
considerar os bens postos à sua disposição como dons de Deus Pai, colocando-os
livremente ao serviço de todos.
Jesus é aqui apresentado
como o novo Moisés, cuja missão é realizar a libertação do seu Povo e
oferecer-lhe a vida em abundância. Como é que Ele o faz? Criando a comunidade
do Reino – isto é, uma comunidade de homens novos, que reconhecem que tudo o
que têm é um dom de Deus, destinado a ser partilhado com os outros irmãos.
(www.dehonianos.org)

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